FÉ E ALEGRIA NA CELEBRAÇÃO DA VILA DE SÃO JORGE, TRADIÇÃO COMEMORADA HÁ MAIS DE 60 ANOS

Porta de entrada do Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros, a Vila de São Jorge é visitada por pessoas do mundo em busca de tranquilidade, da beleza exuberante de suas águas e sua diversidade cultural inspiradora

Por Kayalú Mendonça

Capela decorada para a festa da Levantada do Mastro, celebração que acontece a 67 anos na vila, no dia de São Jorge – Foto: Kayalú Mendonça

No dia 23 de abril, os moradores da Vila de São Jorge celebraram os 67 anos da festa da Levantada do Mastro, na charmosa Capela de São Jorge. A tradição surgiu na época do garimpo, quando a vila deixou de ser chamada de “Baixa” e foi batizada com o nome de “São Jorge”, uma homenagem ao santo católico que possui muitos devotos pela região. A capela, localizada bem no centro da vila, foi erguida em meados dos anos 50 pelo morador “Severo” e com ela surgiu esse momento de celebração e grande comoção, onde a fé e a alegria se unem para celebrar o aniversário do santo padroeiro da vila. A Festa de São Jorge, como é conhecida, acontece todos os anos e, após a missa, o mastro da bandeira do Divino Espírito Santo é levantado e os moradores saem em cortejo pela vila, munidos de velas, muita devoção e harmonia.

Dona Graça Reis e Dona Zezé Menezes, Caixeiras do Divino, durante o Samba de Roda no quintal da Dona Isabel, antiga moradora da vila – Foto: Kayalú Mendonça

Este ano, a comemoração começou durante a tarde com um Samba de Roda no quintal de Dona Isabel, uma das mais antigas moradoras da vila, que ofereceu almoço para toda a comunidade presente. Na sequência, a dançarina Graci Monteiro ministrou uma vivência em Dança Afro em homenagem a Ogum, orixá africano associado a São Jorge, graças ao sincretismo religioso tão característico em nossa cultura.

“Roda do Axé”, encerramento da vivência em Dança Afro em homenagem a Ogum, ministrada por Graci Monteiro – Foto: Kayalú Mendonça

Após a missa, a procissão religiosa e o levantamento do mastro, os moradores se concentraram em frente à Capela de São Jorge e o grupo “Maracatu Leão do Cerrado”, que se apresenta há cinco anos na festa, foi responsável pelo cortejo até a Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge. Os dançarinos Graci Monteiro e Fabrício Donato abriram os caminhos para o maracatu e para toda a comunidade da vila e da região.

Maracatu Leão do Cerrado, de Alto Paraíso, durante a apresentação na Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge – Foto: Kayalú Mendonça

Na sequência, além de receber a Ladainha de São Jorge com Dona Graça Reis e Dona Zezé Menezes, Caixeiras do Divino, que emocionaram a todos os presentes, a Casa de Cultura ofereceu também um jantar com a tradicional “Galinhada” para os visitantes. No palco, as apresentações artísticas do Maracatu Leão do Cerrado, os cantos rituais dos índios Fulni-ô, o projeto Turma que Faz, além do sanfoneiro Luciano da Gameleira acompanhado de Dona Zezé e Dona Graça animaram a celebração que contagia a todos com sua diversidade cultural e respeito à fé em todas as suas manifestações.

Altar da Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge, referência nacional na valorização das culturas tradicionais do Brasil – Foto: Kayalú Mendonça

A Casa de Cultura Cavaleiro de Jorge é referência nacional na valorização das culturas tradicionais do Brasil e promove há 22 anos ações socioculturais para a comunidade, como o Encontro de Culturas Tradicionais da Chapada dos Veadeiros, festival que acontece no mês de julho, desde 2001, e reúne artistas e manifestações populares de todo o país. A parceria com o projeto “Turma que Faz”, da arte-educadora e musicista Doroty Marques, surgiu em 2003 e envolve crianças e adolescentes em atividades educativas, artísticas, culturais, esportivas e ambientais, ao longo de todo o ano. Fruto desse longo trabalho de transformação social e resistência, o espetáculo “Peña Folclórica” foi criado pelo participantes e o dinheiro arrecadado com a venda dos ingressos em eventos e festivais é destinado para a continuidade das atividades desenvolvidas pelo projeto na Vila de São Jorge.

Doroty Marques, arte-educadora e musicista da “Turma que Faz”, durante o cortejo do “Maracatu Leão do Cerrado” – Foto: Kayalú Mendonça

História da Vila de São Jorge

Seu surgimento remonta a 1912 e, segundo os relatos de antigos moradores, o garimpo de Quartzo de Cristal foi a principal atividade desenvolvida no século passado. A criação do Parque, na época batizado de Parque Nacional do Tocantes pelo Presidente Juscelino Kubitschek, foi fundamental para a preservação de suas formações vegetais endêmicas e de rara beleza, nascentes cristalinas e abundantes e suas rochas datadas com mais de um bilhão de anos. Em 2001, o Parque Nacional da Chapada dos Veadeiros foi declarado Patrimônio Natural da Humanidade pela UNESCO, Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura, e o uso indireto dos recursos naturais, apenas na forma de atividades culturais, educativas e recreativas, extinguiu o extrativismo e permitiu que o Turismo se transformasse na única e generosa fonte de renda dos moradores da região.

Lixeiras customizadas nos em mutirões organizados pela comunidade da vila de São Jorge – Foto: Kayalú Mendonça

A cada estação que passa, o Cerrado muda a sua paisagem, se reconfigura e reflete suas mudanças em todos e todas que aqui habitam. Essa resiliência se tornou uma característica de seus moradores, que viveram muitos ciclos de escassez e fartura na época do garimpo, quando o cenário mundial e nacional influenciava constantemente o preço do cristal e o valor pago aos trabalhadores. A identidade dos moradores também acompanhou esse processo dinâmico e a tradição garimpeira e imigrante dos pais não se revela na perspectiva de seus filhos, os nativos. O Turismo é o principal representante dessa nova fase, em que a ligação com o mundo globalizado, com tantas possibilidades de adquirir conhecimento e renda, além do intercâmbio com pessoas de diversas culturas e nacionalidades, trouxe melhoria na geração de renda e na qualidade de vida de todos. Apesar disso, o impacto ambiental causado pelo fluxo intenso de turistas e pela falta de saneamento básico e planejamento estratégico, é uma preocupação constante nas novas gerações, que aprenderam a amar o Cerrado e a importância de preservar esse bioma tão rico. Mutirões comunitários e grupos de apoio a ações socioambientais acontecem de forma autônoma e voluntária, mostrando o engajamento dos moradores em conscientizar os visitantes sobre a importância da preservação da natureza para o desenvolvimento sustentável da vila e de toda a região de Chapada dos Veadeiros.

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