IPEARTES PARTICIPA DO 5º CONGRESSO INTERNACIONAL DO OBSERVATÓRIO DA ALIMENTAÇÃO, EM BARCELONA

A 5ª edição do Congresso Internacional do Observatório da Alimentação, da Universidade de Barcelona e da Fundação Alicia, aconteceu em Barcelona nos dias 19, 20 e 21 de junho e teve como tema a “Patrimônio alimentar, turismo e sustentabilidade” 

Entre os dias 19 e 21 de junho, a coordenadora do IPEARTES/SEDUC, pesquisadora Christiane Ayumi Kuwae, graduada em Nutrição pela Universidade Federal de Goiás (UFG), mestre e doutora  pelo programa em Alimentação, Nutrição e Saúde pela Universidade Estadual do Rio de Janeiro (UERJ), participou do 5º Congresso do Observatório de la Alimentación (ODELA), com o trabalho intitulado “Comunidade do Moinho: fortalecimento da identidade quilombola entre seus moradores e a exploração do turismo e da gastronomia”, elaborado partir das reflexões sobre as práticas pedagógicas desenvolvidas conjuntamente a outros educadores no Povoado do Moinho em 2018 pelo IPEARTES.

COMIDA, PATRIMÔNIO, TURISMO

Esta edição do Congresso teve como objetivo refletir sobre as relações entre o patrimônio alimentar, o turismo e a sustentabilidade. O patrimônio alimentar, como o “patrimônio”, em geral, é uma construção sociocultural, e possui a capacidade de representar simbolicamente uma identidade, tanto como de ser um objeto mercantilizado que movimenta uma indústria de consumo que a teatraliza. Nesta direção, a apropriação deste legado cultural pode não ser ecologicamente sustentável – pelo aumento exponencial do consumo de determinada comida – ou socialmente justo, ou seja, que a sua projeção não beneficie a população local.  Esta lógica esta diretamente ligada ao fenômeno do turismo. Em muitas áreas rurais, a conversão de alimentos em patrimônio e seu modo de produção e consumo como atrativos turísticos está impulsionando a recuperação de espécies agrícolas locais que estavam desaparecendo. Assim, não só as espécies, mas todos os saberes que a circundam, como a forma de produção, preparo, receitas, festejos são recuperadas ou atualizadas. Em um mundo cada vez mais globalizado e pasteurizado, a busca por experiências singulares e autênticas, de poder comer um prato típico na sua região de origem, ou de provar uma fruta ‘exótica’ ou um queijo que só é produzido naquele lugar impulsiona o turismo de experiência.  

O bioma do cerrado é um dos hotspots mundiais da biodiversidade. Este termo denomina as áreas no planeta reconhecidamente ricas em biodiversidade, mas que estão ameaçadas de extinção. Atualmente, existem apenas 20% de áreas nativas remanescentes de Cerrado, grande parte dela no nordeste goiano. As cachoeiras, a beleza cênica, os frutos do cerrado, a culinária goiana desta região do estado tem atraído cada vez mais turistas do Brasil e do mundo. Apesar da riqueza natural deste território, esta região é conhecida também pelos déficits de acesso à educação e outros parâmetros de desenvolvimento social. 

A pesquisadora Christiane Ayumi Kuwae, representante do IPEARTES no ODELA – 5º Congresso Internacional do Observatório da Alimentação, em Barcelona   

O Povoado do Moinho localiza-se na área rural do município de Alto Paraíso de Goiás, há cerca de 12 quilômetros de estrada de terra da cidade.  Foi formado no final do século XIX e reconhecido, em 2015, como um resquício de quilombo pela Fundação Cultural Palmares. Como um quilombo rural, a comunidade sobreviveu a partir do cultivo da terra em pequenos roçados, do desenvolvimento de um saber aprofundado sobre as plantas medicinais do cerrado goiano e da preservação da vegetação e dos rios que circundam a comunidade. A histórica dificuldade de acesso à educação formal e, consequentemente, a precariedade das possibilidades de emprego ligadas a esta condição, limitam as oportunidades de trabalho e geração de renda, sobretudo para os “nativos”, que sobrevivem em subemprego nas fazendas próximas ou na construção civil em Alto Paraíso.

As belezas naturais deste território, a sabedoria popular sobre as plantas medicinais e a pacifica comunidade atraem novos moradores e turistas, que buscam refúgio e aconchego nesta comunidade que se desenvolveu integrada com a natureza. A comunidade é formada por poucas ruas, de casas simples e rústicas, habitada por moradores modestos, simpáticos e acolhedores, que detém um vasto conhecimento sobre o cerrado, em um território circundado por águas cristalinas, no meio de um vale e ao lado de uma exuberante cachoeira. O Moinho representa simbolicamente o bucolismo, a pureza, a simplicidade e um refúgio às mazelas do mundo, onde é possível viver em harmonia com a natureza.

Estes valores simbólicos associados ao Moinho estão presentes nos produtos alimentícios comercializados na região, como um valor agregado. Grande parte da comunidade é de indivíduos que vieram morar nela, e não dos sujeitos que nasceram ali. Deste modo, as qualidades do Moinho são apropriadas como valores simbólicos para um marketing mercantilista e capitalista e que nem sempre beneficia a comunidade local que, geralmente, trabalha como mão de obra barata. Portanto, a perpetuação desta relação assimétrica entre os atores sociais locais ratifica a histórica violência sofrida pelos moradores tradicionais.

Por outro lado, a recente patrimonização deste território e a busca do resgate da cultura local, ao lado da retomada da Educação formal para Jovens e Adultos, EJA, oferecida pela Secretaria de Estado da Educação de Goiás (SEDUC/GOIÁS), por meio da equipe de educadores do IPEARTES, tem sido uma das iniciativas para a valorização da história, dos saberes tradicionais e da culinária local pelos seus moradores. Neste sentido, a (re)construção da identidade cultural do Moinho entre seus moradores tradicionais tem sido um importante movimento de ressignificação da sua história e do reconhecimento dos seus saberes.

Dentro disso, a valorização dos saberes e sabores das cozinheiras locais é um dos pilares deste movimento que busca garantir autonomia e geração de renda para a comunidade, a partir da valorização do seu patrimônio alimentar e cultural, por meio do turismo. No Povoado do Moinho as atrações turísticas mais conhecidas são as Cachoeiras Anjos e Arcanjos que ficam dentro de uma propriedade privada. Para chegar à propriedade, o trajeto circunda o Povoado. Deste modo, a população local quase não se beneficia do fluxo turístico, já que o valor cobrado de entrada das cachoeiras é restrito ao seu proprietário e os visitantes não circulam pelo Povoado. O desenvolvimento do turismo local foi objeto de um dos cursos oferecidos pelo IPEARTES/SEDUC em 2018 e foi identificado que o desejo dos moradores está sobretudo no desenvolvimento da culinária local e da hospedagem. Vinho de jabuticaba, vinho de amora, pães, compotas de frutos do cerrado, como mangaba, e de outros frutos tropicais, sucos de frutos do cerrado, pão de queijo, doces, são comidas que são produzidas e comercializadas no Povoado do Moinho, assim como o preparo de um almoço com alimentos locais, como a galinha caipira. 

No entanto, o desenvolvimento das estratégias de turismo está atrelado à demanda por um acesso regular à educação de qualidade, que seja sensível às demandas da comunidade, como a que o IPEARTES/SEDUC buscou desenvolver ao longo destes anos de 2018\19. Grande parte da população nativa não pode estudar ou não concluiu os estudos. Os moradores mais antigos do Povoado relatam, durante as aulas da EJA, a dificuldade que tiveram ao longo da sua formação e os motivos de não terem conseguido concluir seus estudos. Saber ler, escrever, desenvolver a habilidade matemática são competências que os sujeitos classificam como um ponto de virada na sua trajetória de vida. Podemos perceber nos discursos dos estudantes-moradores como a educação é um espaço de privilégio, ainda mais em uma comunidade rural negra.

Nesta direção, a patrimonização dos quilombos, ou seja, o reconhecimento da singularidade da cultura que se desenvolveu nestas comunidades e nos seus territórios salvaguarda a posse da terra e, consequentemente, preserva e possibilita a continuidade dos seus modos de vida. Portanto, a assunção desta identidade emerge como estratégica no desenvolvimento de um turismo de experiência que valorize a cultura deste povoado. No entanto, as violências do período escravocrata, as reproduções ao longo das décadas subsequentes da mesma lógica exploratória, a histórica marginalização social destes sujeitos são dores ainda presentes no povoado e que precisam ser respeitadas para serem ressignificadas como uma expressão de força e coragem.

Para viabilizar a participação no Congresso, Christiane Ayumi mobilizou uma campanha de financiamento coletivo, além de outras ações colaborativas, para o custeio da inscrição, passagem e hospedagem. O primeiro passo desta campanha iniciou-se no dia 16 de maio, com o esclarecimento para os estudantes da EJA do que era o congresso, o pedido de autorização da comunidade para a apresentação do trabalho, e o comprometimento da educadora em retornar para eles as contribuições desta ação.

Além da apresentação do trabalho em si e do debate em torno dele no Congresso, esta foi uma oportunidade de ouvir e debater sobre as potencialidades e os cuidados sobre o desenvolvimento do turismo. Quem se beneficia com ele? Como podemos promover um turismo que seja ambientalmente sustentável e economicamente justo? Como a população local pode se beneficiar com isso? Quais as diferenças entre um turismo de massa e um turismo de experiência? Como a culinária local, o artesanato e os saberes locais podem ser evidenciados?

No dia 24 de setembro, Christiane Ayumi, a equipe de educadores do IPEARTES  e os estudantes da EJA realizaram uma roda de conversa com degustação de diversos produtos típicos da Catalunha, como azeite, azeitona, avelas e comidas típicas como o ‘pam amb tomaquete’ e uma versão não alcoólica da Sangria, bebida típica do mediterrâneo. Os produtos catalães apresentados eram todos orgânicos e com selos de denominação de origem controlada D.O.C., a maioria deles produzidos em cooperativas. A intenção de experimentar estes alimentos foi de exemplificar como a comida no exterior é valorizada pelas suas características singulares e que algumas delas podem ser estratégicas para a compreensão da riqueza que há na comida que eles produzem.

Buscamos deste modo que o trabalho do IPEARTES\SEDUC seja respeitoso com o Povoado, valorizando a sua história e sua sabedoria. As ações educativas partem da escuta da comunidade, que reconhece a importância da educação formal, e ao lado disso, compreendemos que a realização de pesquisa no Povoado e com os moradores só é justa se oferece alguma contrapartida para a comunidade.

“ODELA” – 5º CONGRESSO INTERNACIONAL DO OBSERVATÓRIO DA ALIMENTAÇÃO

O ODELA Food Observatory (www.ub.edu/odelaé um grupo de pesquisa consolidado vinculado ao Departamento de Antropologia Social da Universidade de Barcelona, ​​interessado em gestão do conhecimento em alimentação e saúde. É composto por uma equipe de pesquisadores qualificados de diferentes especialidades (antropologia, comunicação, economia, estatística, história, linguística, nutrição e sociologia), e principalmente relacionados a universidades e entidades sociais catalãs com sede em Barcelona. Possui vasta experiência no estudo de práticas e atitudes alimentares em qualquer uma das fases da cadeia agroalimentar (produção, distribuição, consumo) e está a serviço dos atores da vida econômica e social. Desde a sua criação, desenvolveu e disseminou estudos sobre modos de vida, opiniões, percepções, aspirações, atitudes e práticas de consumo, utilizando as mais avançadas metodologias de pesquisa (etnografia qualitativa, quantitativa, real e virtual).

O objetivo geral do ODELA é observar, descrever, explicar e interpretar a variabilidade e evolução dos hábitos e comportamentos alimentares para alcançar uma melhor e melhor compreensão deles. E isso, a partir de uma abordagem crítica que analisa aspectos relacionados à saúde, o impacto nas sociedades produtoras e as consequências dos hábitos atuais de consumo de alimentos nos ecossistemas. A Fundação Alícia – Alimentação e Ciência, é um centro de pesquisa na cozinha, seus produtos e processos culinários; que inova e trabalha para melhorar a dieta das pessoas, com atenção especial às restrições alimentares e outros problemas de saúde; que estimula a melhoria dos hábitos alimentares e valoriza o patrimônio alimentar e gastronômico dos territórios. Alícia é uma fundação privada sem fins lucrativos, criada em 2003. Seu Conselho de Curadores é formado pela Catalunya – La Pedrera Foundation, a Generalitat da Catalunha e pessoas de reconhecido prestígio. Tem a cumplicidade e colaboração dos principais cientistas e dos melhores chefs.

Esta edição do Congresso teve como objetivo abordar a herança alimentar em sua relação com o turismo e a sustentabilidade. O patrimônio alimentar, como o “patrimônio” em geral, tem sido considerado uma construção sociocultural, com capacidade de representar simbolicamente uma identidade, como uma indústria de valores agregados. A lógica político-cultural responde a um desejo de recuperar o que, tendo desaparecido ou em processo de desaparecimento, foi considerado uma manifestação de identidade. A lógica mercantil está inclinada a patrimonizar o que provavelmente se tornará mercadoria, seja pelo tamanho do espetáculo ou pelo objeto consumível. Os sucessos dos processos de patrimonialização de alimentos nos obrigam a considerar alguns problemas específicos relacionados ao setor produtivo e à sustentabilidade, a curto, médio ou longo prazo, seja da paisagem, dos recursos, das atividades, dos benefícios, incluindo políticas alimentares urbanas, regionais e/ou estaduais, etc. Aproveitando as possibilidades comparativas que a dimensão internacional deste Congresso permite, é possível levantar uma série de perguntas abertas como um convite para participar e apresentar as respostas que elas podem fornecer, a partir da diversidade de suas experiências, países, abordagens, problemas, tipos de envolvimento , responsabilidade etc.

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